domingo, 17 de outubro de 2010

Escritos a ninguém



"Oi! Sei que faz tempo que não lhe mando cartas. É que meus dedos congelaram junto com meu coração...
Sabe, depois que ele partiu, a minha alma encolheu, meus olhos ficaram fracos e minhas juntas já não funcionam direito. Sei que eu não deveria me sentir assim. Me disseram que é normal sofrer de amor nessa idade. Eu, hein? Quando dizem que sentimos algo que faz cócegas dentro da gente, pode ser amor.
Eu senti isso a primeira vez que o vi. Ele estava abaixado, amarrando suas chuteiras. Eu olhei pra ele, mas logo desviei, por que fiquei com vergonha que ele percebesse o quanto meus olhos gostaram de vê-lo. Mais vergonha eu tinha de estar ali, com meu corpo que não sei se era grande ou pequeno, se era estreito ou não.
Me sinto estranha morando dentro de mim, sabe? Parece que quem os outros vêem não é a mesma que eu vejo quando me imagino. Pode ser, até porque só eu sei o quanto eu mesma sou.
Quando as pessoas vão embora, parece que elas sempre querem deixar algo delas com a gente. Seja um cheirinho que volta e meia sentimos no cinema, ou aquela música que toca no supermercado, que já nos lembra o quanto era bom ter o sorriso dela juntinho do nosso.
Quando eu viajo de trem, lembro da risada dele, que mesmo sem saber que me trazia alegria, esquentou as noites frias daqueles outonos que vieram.
Não que eu não goste de outono, sabe? Adoro andar pelas folhas e ouvir o barulho que elas fazem. É que quando ele me deixou, o céu não merecia ser tão bonito. Eu não tinha mais nada pra celebrar.
Eu esperava ele sempre no mesmo banco. Geralmente ele passava por lá depois da aula de canto, cerca de uma hora antes da mamãe servir o jantar. Eu ficava ali só esperando ele passar. Ele sempre estava com aquela bicicleta vermelho-ferrugem, e a cestinha sempre estava torta, um pouco mais pra direita. Geralmente ele amarrava as chuteiras no canto de sua mochila. A última vez que o vi elas não estavam mais lá.
Hoje eu esperei por ele no mesmo lugar. Faço isso nos últimos 57 anos.
Ele nunca apareceu. Ele não sabe que chorei por noites seguidas quando vi o caminhão cheio de mobília sair da frente da casa dele. Ele não sabe que espero ele nesse mesmo banco. Ele não sabe meu nome. Eu também não sei o dele, mas imagino algo simples, assim como sua face. Sugiro um Pedro ou Roberto. Ele definitivamente não tem cara de Murilo. Um dia ele pode passar por aqui, quem sabe. Enquanto isso, escrevo essas cartas a você, que mesmo sem respondê-las me escuta com o maior carinho. Só tenho a agradecer."

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